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- "Câncer e má alimentação"
PESQUISA REFORÇA RELAÇÃO ENTRE CÂNCER E ALIMENTAÇÃO
INADEQUADA
[Agência Estado – 19 de Março de 2.009, Quinta-Feira, às 02:12 horas]
(Por Giuliana Reginatto)
São Paulo, 19 (AE) – O filé grelhado se disfarça no meio da saladinha, com
fama de comida saudável. Ninguém desconfia das boas intenções de um bife
feito na chapa, sem gordura aparente. Esse modo de preparo, contudo, provoca a
liberação de substâncias cancerígenas pelo alimento. Assar ou cozinhar a carne
é o melhor a fazer para proteger o estômago dessas toxinas, assim como ingerir
mais fibras e preservar a saúde do cólon e evitar o álcool reduz a chance de
passar por tumores de boca, laringe e faringe.
A conclusão de um estudo pioneiro, divulgado há duas semanas, autentica a
receita de saúde que a classe médica vem repetindo há anos, feito um mantra:
“mantenha uma dieta equilibrada, pratique exercícios físicos”. Medidas populares
como essas seriam capazes de prevenir 12 tipos de cânceres no Brasil.
Os resultados da pesquisa Política e Ação para a Prevenção do Câncer, promovida
pelo Fundo Mundial de Pesquisas sobre o Câncer em parceria com o Instituto
Americano para a Pesquisa do Câncer, se baseiam na análise minuciosa de 7 mil
estudos sobre a incidência de tumores de mama, esôfago, rim, vesícula, pâncreas,
fígado, próstata, endométrio, cólon, pulmão, além da dupla faringe e laringe.
No Brasil, que integrou o levantamento ao lado da China, Estados Unidos e
Reino Unido, os pesquisadores concluíram que, no geral, 30% dos casos de
câncer poderiam ser evitados. Para tumores de boca, faringe e laringe o índice
chega a 63%.
Na avaliação do médico Fábio de Oliveira Ferreira, cirurgião oncologista do
Hospital AC Camargo – um dos principais centros de estudo sobre o câncer no
País – convencer a população a adotar um estilo de vida saudável para prevenir
doenças é uma tarefa árdua porque os efeitos advindos com a mudança custam
a aparecer. “Se eu alterar meu comportamento hoje, passando a fazer exercícios
e a comer corretamente, o reflexo disso em termos de diminuição de risco para o
câncer aparecerá dentro de 10 ou 15 anos. É como parar de fumar: leva uns 10
anos para o corpo ficar totalmente desintoxicado”, diz o especialista, que é doutor
em medicina pela Universidade de São Paulo.
Ferreira acredita que as conclusões sobre a possibilidade de prevenir o câncer
podem nortear o comportamento das próximas gerações. “A mudança de hábito,
embora não traga efeitos tão imediatos para o organismo, se refletirá em nossos
filhos. É possível que esse conhecimento possa servir até mesmo para aprimorar
a alimentação nas escolas, dando prioridade à ingestão de fibras e diminuindo o
consumo de gordura e carna vermelha. Assim, provavelmente seremos capazes
de diminuir a incidência de câncer nas próximas gerações”, diz o médico.
A relação entre alimentação equilibrada e prevenção do câncer é tão estreita
que o Instituto Nacional do Câncer (Inca) criou um departamento específico
para explorar o tema já em 2.007, o setor de Alimentação, Nutrição e Câncer.
“Está claro para muitas pessoas que o padrão alimentar interfere nas doenças
cardiovasculares e na diabete, mas em relação ao câncer isso encontra certa
resistência cultural”.
De fato, faz parte da prevenção alterar hábitos já consolidados em muita gente,
como abusar do álcool e do churrasco”, explica o nutricionista Fábio Gomes,
analista de programas para controle do câncer da instituição.
Segundo Gomes, a cervejinha do fim de semana pode ser ainda mais nefasta
quando acompanhada pelo cigarro. “O abuso de álcool tem relação direta com
tumores de boca, laringe e faringe. Ele torna a mucosa dessa região mais
permeável, facilitando a penetração de agentes cancerígenos, como as toxinas
do cigarro. Uma dessas toxinas, o alcatrão, também está presente na fumaça
do churrasco e acaba impregnando a carne”,, esclarece. “Um jeito de minimizar
o problema é aumentar a ingestão de hortaliças e frutas, que são alimentos
protetores. Sempre é possível acrescentar uma salada ao churrasco. É o teor
da alimentação que determina se ela será fator de proteção ou de risco para o
câncer”, completa.
Até mesmo contra o câncer de mama, considerado um tumor intimamente
relacionado à carga genética, há medidas dietéticas eficazes. Segundo o recente
estudo, quase um terço deles poderia ser evitado no Brasil. “O consumo alto de
gordura e a quantidade elevada de gordura corporal alteram o metabolismo da
mulher e sua produção hormonal. Assim, fazer a manutenção do peso é uma
medida de prevenção fundamental”, analisa Gomes.
Ele destaca que amamentar por pelo menos seis meses é outro fator de
proteção. “Fazendo isso a chance de ter câncer de mama diminui de 10% a 20%”.
Segundo o especialista do Inca, alguns alimentos, além de gordurosos contém
outras substâncias que podem estimular os quadros de câncer. “Nos embutidos,
por exemplo, há conservantes à base de nitritos e nitratos, que em contato com o
suco digestivo se transformam em compostos reconhecidos como cancerígenos
pela Organização Mundial de Saúde. Até mesmo as versões light ou diet desses
produtos, apesar de apresentarem teor reduzido de sódio ou gorduras, contém os
mesmos conservantes”, alerta o nutricionista.
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